Hoje aprendi a fazer filhós, uma massinha frita com gostinho de infância, com a minha sogra e a Tia do Marcello. Receita da avó, falecida nesse ano.
Eu acredito fielmente que receitas de família devem se perpetuar, por isso, insisti tanto que as filhas-herdeiras me ensinassem. Mais do que os ingredientes necessários e o modo de fazer, pedi que me dissessem cada detalhe, quando era feito, como a avó manuseava a massa, qual era a ocasião preferida que ela os preparava, e assim por diante. Mais do que receitas, histórias me interessam.
E assim, passei o dia ouvindo "mamãe fazia assim", "ninguém entrava na cozinha quando mamãe estava fazendo filhós!", "eu não aprendi a fazer porque eu chegava perto só na hora de comer mesmo!", "minha avó deixava mais clarinho/moreninho", "eu me lembro de ter comido pedaços maiores, mas talvez seja porque éramos bem menores", "vovó servia tachos de alumínio cheios, a gente vinha correndo!", "hmmm como estava com vontade de comer isso de novo!"... e a família, de alguma forma, trouxe viva a memória da avó, enquanto eu, amassando a farinha, ovos e fermento, dizia em voz alta "D. Anunciação! Ajuda a gente daí que esse negócio precisa dar certo!"...
O processo todo de preparo da massa até a fritura trouxe ingredientes que nunca estarão escritos num livro de receitas. "A bolinha era maior!" ... "Nossa, eu não imaginava que mamãe tivesse tanta força para bater essa massa, ela é pesada mesmo!" ... "Será que mamãe colocaria mais água?"... "Meu Deus, essa ficou igualzinha!" ... "O cheiro é o mesmo que o da vovó!"...
E assim, no meio dessa catarse de memórias e detalhes, comecei o ano de 2010.
Aprendi uma receita nova que, de alguma forma, trouxe como herança um pedacinho da infância dos pais (netos) para as suas filhas (bisnetas). Fiz questão de que todas as bisnetas provassem do "docinho da bisa", embora não possa recriar o mesmo quintal da avó, o cansaço da infância aliviado por uma massa recém-frita e cheirosa na cozinha, que fazia os netos se aquietarem por um tempo em volta de uma xícara de café com leite no final da tarde, a avó bronqueando a bagunça na cozinha, o cheiro e o calor de uma época que não volta.
De alguma forma, hoje, recriamos e criamos memórias e ... um pouco de filhós, que no final das contas, se tornou o "resultado" menos importante do dia.
É bom começar um ano assim. E isso me dá mais certeza ainda de que esse será, de verdade, um ano bom.



1 comentários:
Oh Deh, que texto lindo, que coisa boa de viver ... (você só esqueceu de falar que vibrou, que vibrou, que vibrou quando a massa fez p..)
beijos com carinho
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