Conheci Ivan Kraut há muito tempo, antes de me casar, antes de ele ir fazer Arte Dramática na USP, antes de eu ser mãe, antes de ele virar um professor de Matemática maravilhoso e um ator super talentoso.
A vida, com sua agenda cheia, nos afastou muito. Quando Clarice nasceu, ele me ligou, dizendo "agora você tem a sua Clarice! agora você tem a sua Clarice!" E sempre rimos muito e falamos tanto de literatura, de Machado, de bobagens. Só por provocação, ele sempre cantava a música "Madalena", da Elis, para me irritar, só porque eu detesto. Tantas vezes atendi ao telefone no trabalho, e ele rindo, no outro ramal, entoando Madalena-le-le-na-na. Principalmente quando eu menos podia rir, lógico.
Ivan sabia poemas de cor e eu gostava de ouvi-lo recitar. Sabia tudo de Bethania, de mitologia, sabia contar histórias, falar de filosofia, imitar. Sabia fazer rir. Não houve um dia em que fosse possível ficar triste/brava/infeliz ao encontrá-lo.
Ivan era uma pessoa linda, boa, inteligente, sensível, alegre, generosa.
Hoje à tarde, meu telefone tocou, e no outro lado alguém me dizia que Ivan morreu. O velório, a cremação dali a duas horas, o câncer recém-descoberto entre o pulmão e o coração, a única sessão de quimioterapia, uma semana de internação, a dor no peito tão forte hoje pela manhã, a morte súbita.
Eu não conseguia ouvir esse triller de terror, não, não, não. Eu só consegui responder, "não, o Ivan, não."
Já no velório, muitos amigos. Não havia um olhar que não estivesse cheio de lágrimas, perdido, lembrando, como eu, momentos engraçados e bons ao lado dele. Um sacerdote veio dizer algumas palavras, pediu para que orássemos.
Em seguida, o pessoal que ele tanto amava do grupo de teatro começou a cantar uma música, a música do Ivan, e assim, nos despedimos, em meio a choro, fé, música e muitos, muitos aplausos. Muito amor. "Bravo!"
Ivan encerrou sua curtíssima passagem aqui como sempre viveu: rodeado de amigos, aplaudido por todos, querido por unanimidade. E eu fico aqui tão triste, tão triste, com muita raiva de Deus.
"Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?"
Carlos Drummond de Andrade




