
Não dá para passar impune pelo aniversário de um filho. É impossível não parar para pensar um pouco na vida, naquela vida que não existe mais e que você já nem se lembra como era, e da vida que virá a ser, a cada dia, que se mistura tanto, mas tanto com a história dessa nova pessoinha.
Nesses momentos, quando tanta gente te diz na festinha de comemoração do aniversário "nossa, como passou rápido!", é que você se dá conta que são apenas poucos anos para muita novidade, três anos que somam quase uma década.
Há três anos atrás, eu não me imaginava trocando fraldas, brincando de colar figurinhas, inventando músicas para apaziguar choros histéricos (quando já não se há mais nada a fazer, a não ser cantar para acalmar a si mesma e acreditar em Deus).
Há três anos, não me imaginava comendo um resto de doce babado, porque a cria cuspiu na sua mão e por perto não há um lixo disponível para descartar o refugo. Não imaginava ter controle emocional no meio de uma noite tranquila de sono ao ser despertada por grito de horror por um monstro imaginário na cortina.
Eu dormia tarde, acordava mais tarde ainda, tinha a solteirice de botar a bolsa no ombro e sair por aí, só para bater pernas. Hoje, não ponho o pé na calçada sem olhar para o céu e prever, com intuição ancestral, se vai chover, se vai ventar, se é preciso mesmo sair à rua com um bebê-criancinha.
Eu fumava de vez em quando, só por farra, ria muito alto. Eu não observava que no caminho da porta do apartamento até o elevador, poderiam ser descobertas tantas formigas e pedacinhos microscópicos de papel. Não recolhia parafusos e moedas pela casa com tanto pavor, como também possuía com paixão todos os meus livros na estante... ninguém era autorizado a tocá-los com mãos descoordenadas e meladas de doce.
Há três anos, as roupas me serviam, e se não servissem, tinha tempo (e muito mais vontade) de procurar por outras nas lojas. Jamais imaginaria que o meu roteiro de tarefas e compromissos se dariam nos arredores de uma escolinha infantil, onde descobri tantos sapateiros, cartórios, costureiras, lojas de presentes e lavanderias.
Eu tinha tempo. Para mim, pro Marcello, para fazer canapezinhos e enroladinhos na cozinha, para assar carnes longamente em fogo baixo, sem nenhum cuidado com mãozinhas curiosas no vidro quente do forno.
Eu não tinha tanto medo da morte.
Eu não tinha tanta coragem.
Há três anos, não foi apenas a minha rotina que mudou. Não foi apenas o sono que tomou o peso de uma pena, a responsabilidade de dar condições para a felicidade de alguém tão recente em minha vida tenha se tornado o alvo de todos os meus esforços.
Mudou também o meu olhar para o outro, o meu entendimento das pessoas, a minha compreensão da vida - nunca tinha sido tão orgânica e voraz, tão primata, tão mulher.
A minha vida com a Clarice não tem chorumelas. É jogo duro, todo dia. Não dá pra bobear, fazer beicinho, desistir. Mas ainda sendo difícil, é uma vida que eu amo, com toda a força do meu coração. Uma vida que não troco por absolutamente nada no mundo.
A sua vozinha rouca, me chamando de mamãe, é pura poesia. Suas descobertas de uma criança de três anos são tão singelas que emocionam. Seus verbos mal conjugados, "eu sabeu, mamãe", são de uma beleza implacável. Seu sorriso, ah, seu sorriso... quando consigo provocar gargalhadas naquela magrelice de menininha pequena, naquela pessoinha de 14kg e 99cm, quando ela quase perde o fôlego, gritando, "de novo, mamãe!"... ah!
Receber seus bracinhos pesados em volta do meu pescoço no fim de um dia cansado, é um bálsamo, uma recompensa que vale qualquer sacrifício.

Porque há três anos, minha vida se encheu de amor.
Eu te amo, pipoca. Que Deus te abençoe sempre e muito.