Ele era um homem forte, decidido, firme, durão, quase rude muitas vezes. Mas se emocionava muito, com um gesto meu, um filme, uma missa. E nessas horas, quando percebia lágrimas no seu rosto - disfarçadas, obviamente, sabia que ali tinha um coração enorme.
Com a idade, ele foi ficando cada vez mais sensível. Sua saúde se debilitou muito nos últimos anos, mas ainda assim ele juntava forças - na maioria das vezes, para ajudar a todos que o procuravam. Para ajudar muito a mim e à minha mãe.
Quando nasceu a Clarice, meu pai se tornou um avô de livro infantil. Bonachão, divertido, carinhoso até onde não se cabia mais. Completamente coruja.
Seu último aniversário foi comemorado 2 dias antes de sua hospitalização. E a festa parecia ser da Clarice. O bolo, foi escolhido pelo sabor que ela gostava, as comidinhas, o que ela preferia.
Nossa família diminuiu mais um pouco com o término do meu casamento, mas ainda assim, estávamos os quatro (eu, minha mãe, ele e Clarice) felizes e esperançosos pela cirurgia que ele iria fazer na semana seguinte (o que acabou nem ocorrendo).
Fotografei muito naquele sábado. Clarice foi muito carinhosa com ele e os dois brincaram bastante as brincadeiras singelas que ele inventava. As mesmas que ele costumava fazer comigo.
Meu pai foi um homem simples, honesto, amigo. Sua maior herança é o amor que ele deixou em mim, que tem me feito tão forte para aguentar mais um obstáculo imenso nesse 2010 infinito.
É desse pai que lembro todo dia.
É esse avô que vai permanecer nas lembranças de Clarice.
Que ela saiba que amor, em nossa história, é hereditário. E que ser alguém bom e justo é a melhor herança que podemos deixar dessa vida.
Vovô Hilário e Clarice, brincando felizes, em 26 de junho de 2010.



